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De Sedentário a Maratonista

A motivação também se treina!

Seg | 30.07.18

Como começar a correr

José Guimarães

 

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Se estão a ler este artigo é porque muito provavelmente querem começar a correr. As boas notícias são que, se pelo menos nas 3 últimas semanas caminharam ou fizeram algum tipo de exercício físico (como bicicleta estática ou elíptica) de uma forma regular, isto é, mais ou menos 30 minutos por dia, pelo menos 3 vezes por semana, estão preparados para começar a correr. As más notícias é que, se ainda não estão nesta fase, talvez queiram começar devagar e com orientação. Para começar podem juntar-se ao meu grupo de corrida na no ginásio Goall Wellness, numa destas quartas feiras às 19h30. Se já passaram esta etapa inicial, então sigam os passos seguintes:

 

Comecem por caminhar/correr

Sim, pode ser tentador sair para a rua e desatar a correr durante o tempo que se conseguir. Mas o melhor a fazer para poderem aumentar a distância e a velocidade da vossa corrida, e sentirem o corpo cada vez mais forte é, sem dúvida, intercalar pequenos blocos de corrida com as vossas caminhadas regulares, aumentando gradualmente o tempo de corrida. Comecem por fazer 1 minuto de corrida e 4 minutos de caminhada, aumentando o tempo de corrida gradualmente, enquanto diminuem o de caminhada. A seu tempo, vão estar só a correr sem caminhar e sem problemas.

 

Cuidado com os exageros

Lembrem-se sempre que o vosso objetivo tem que ser começar a correr sem ter lesões, nem agora, nem nunca! Por isso, correr uma distância muito grande ou muito depressa, antes do corpo estar preparado para isso, pode ser uma das principais causas para lesões, como as famosas dores nas canelas, dores nos joelhos ou síndrome da banda iliotibial. Mantenham-se longe das lesões aumentando gradualmente o tempo que passam a correr, nunca mais de 10% em cada semana.

 

Deixem que o corpo vos guie

Podem e devem esperar algumas dores musculares depois dos primeiros treinos, principalmente nos quadricípetes e nos gémeos. Isto acontece porque estão a levar o corpo além daquilo a que ele estava habituado. Mas há dores que não devem ignorar, como dores agudas que são persistentes ou que pioram à medida que correm ou caminham, ou que o dia normal vai acontecendo. Essas dores normalmente são um sinal para visita um médico especialista. Confiem em mim, não deixem passar muito tempo, ou a coisa pode tornar-se crónica.

 

Preparem o equipamento

Não vão precisar de muita coisa para começar a correr, mas talvez seja importante investir num bom par de sapatos para correr. Sapatos já muito gastos podem levar facilmente a contrair uma lesão e, muitas vezes, o que está gasto não é visível a olho nú, mas sim dentro do próprio sapato. Dirijam-se a uma loja especializada (se não conhecem, enviem-me uma mensagem), ou procurem o conselho de uma pessoa com experiência, que vos possa recomendar a melhor solução para os vossos pés. E não comprem por uma questão de moda ou preço. Nestas coisas, o dinheiro é sempre um bom investimento. Substituam os sapatos a cada 500 ou 600 km. Invistam também numas roupas técnicas, com tecidos especiais que permitam a transpiração e evaporação do suor.

 

Encontrem a vossa rota

Tenham começado a correr na estrada ou em trilhos, o mais importante é que encontrem um sítio para correr que seja confortável e seguro. Esse local tranquilo e seguro pode ser mesmo à porta de vossa casa ou não. Haverá certamente muitas opções. As passadeiras normalmente oferecem um modo confortável e seguro para começar, mas uma pista será por exemplo o melhor local para os primeiros passos, já que são totalmente planas, sem trânsito e é possível medir a distância sem usar um relógio com GPS, já que a maior parte das pistas têm 400 metros.

 

Treinem a mente

Depois das primeiras semanas, vocês vão provavelmente começar a acreditar que é possível correr. Mas não subestimem a atividade. Se ao início a evolução pode ser muito rápida, passado algum tempo pode tornar-se difícil sair para a rua e ir correr, principalmente em alturas como o inverno. para ajudar façam um plano. Preparem as vossas músicas preferidas, escolham o melhor período do dia para ir treinar e vejam com o que é que se podem recompensar, algo que vos motive a ir treinar. Coloquem esse plano onde o possam ver, como no frigorífico ou no espelho da casa de banho. Se a melhor altura do dia para correr é de manhã, escolham uma música mais energética. Tentem treinar sempre à mesma hora do dia. Na noite anterior, coloquem o equipamento ao lado da vossa cama. Depois do treino, mimem-se com um bom banho e um batido proteico, para que o vosso cérebro associe o exercício com algo bom.

 

Relaxem e corram direitos

Para já não têm que se preocupar muito com a forma de correr, mas há algumas coisas importantes que vos vão fazer sentir mais confortáveis. Corram com passadas curtas. Mantenham os cotovelos dobrados a 90º e as mãos e ombros relaxados. Vejam-se a vocês próprios a correr, olhando para o horizonte e evitem olhar para os pés. Se precisarem de ajuda, sim, eu sou "personal trainer" ;)

 

Parem se tiverem que parar

Assim que começarem a correr regularmente, podem começar a sentir-se suficientemente confortáveis para deixar os trechos a caminhar. Mas é importante aprender a respeitar o corpo e caminhar se se sentirem cansados. Isto vai ajudar a prevenir a fadiga e também de fazerem demasiadas coisas, demasiado cedo. Ao fazerem intervalos para caminhar durante a corrida, vão garantir que vão acabar cada treino a sentir o corpo ainda em forma.

 

Mantenham o balanço calórico

Para começar a correr é importante habituar a manter o corpo energizado. Caso contrário podem começar a sentir-se demasiado cansados. Em cada refeição, cerca de metade dos carbohidratos deve vir de frutas, vegetais e cereais. Cerca de 1/4 das calorias deve vir de gorduras saudáveis como sementes, frutos secos, abacate ou azeite. E o resto das calorias deve vir de uma fonte de proteínas, como carne branca magra, peixe, ovos e feijões.

 

Sejam pacientes

Muitas das mudanças positivas que vão acontecer assim que começarem a correr com mais regularidade não serão visíveis ao espelho. A perda de peso vai acontecer caso sejam consistentes, mas devem prestar atenção à condição dos músculos, ligamentos e tendões. O corpo vai produzir mais vasos capilares, mitocôndrias e mais enzimas, para ajudar a queimar mais gordura como fonte de energia. E de cada vez que os vossos pés tocarem no chão, o impacto vai estimular a produção de osso, que se podem tornar mais fortes e densos. Mas, se não forem pacientes, podem correr o risco de fazer muito demasiado cedo e, em vez de tirarem benefícios, contraírem lesões.

 

Fonte: Runner's World

Ter | 24.07.18

Os meus super heróis: o Ricardo

José Guimarães

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Hoje começo uma rubrica nova aqui no blog. São posts um pouco diferentes dos habituais. São posts que falam de pessoas que me inspiram. Pessoas que de alguma forma conseguem ultrapassar obstáculos que, se eu me visse confrontado com alguns, não sei como seria. São pessoas comuns, mas que, para mim, são autênticos super heróis!

 

O Ricardo Cunha tem 38 anos e é natural de Escariz S. Martinho, concelho de Vila Verde. É casado, segurança de profissão, e convive diariamente com uma doença crónica: insuficiência renal crónica, conhecida por Nefrite IGA. Resumindo, os rins não funcionam! Está atualmente em tratamento com um programa de diálise peritoneal, que ajuda a fazer o que os rins não fazem naturalmente.

 

Desde cedo o Ricardo manifestou interesse pela prática desportiva, dedicando o seu tempo livre a modalidades como o futebol federado, futebol salão e cicloturismo. Ainda com total desconhecimento de que pudesse ser portador da doença, a prática de atividade física contribuiu para o seu bem-estar físico e psicológico, para a sua auto-estima, desenvolvimento geral e social. Desde essa altura já encarava - e bem - o desporto como fonte de bem-estar e saúde.

 

Aos 19 anos ingressa na vida militar, em regime de contrato, culminando com uma missão na Bósnia no ano 2000, vida que deixou em janeiro de 2001 porque a vontade de estar próximo da sua família, pilar da sua vida e formação enquanto pessoa, e a vontade de constituir a sua própria família, foram mais fortes.

 

Nessa altura surgem os primeiros sintomas de uma doença com a qual teria de aprender a lidar toda a sua vida. Fadiga intensa, hematúria, infeções do trato urinário recorrentes, hipertensão arterial, entre outros sintomas, tudo levou a um internamento no então Hospital de S. Marcos – Braga, no serviço de Urologia, tendo neste contexto, sido observado pelo Dr. Frazão, conceituado Nefrologista que o reencaminhou para o Hospital de S. João para realização de exames específicos. O reencaminhamento para um hospital central constituía um misto de sentimentos e inquietações: se por um lado tinha a segurança de estar bem entregue, dada a oferta de especialidades desse hospital, por outro lado havia questionava-se com medo, sobre o porquê da necessidade de ser tratado num hospital com aquelas dimensões e conotação. Parecia o início de um fim anunciado, como que um prenúncio para algo de muito grave que viria a acontecer.

 

A biopsia renal confirma o temível diagnóstico de Nefrite crónica. Inicialmente não lhe pareceu tão mal assim. Não tem o estigma, nem o impacto de um cancro, não se vê objetivamente a doença. Parece tratável, ainda que sem cura. E a grande maioria das pessoas não sabe o que é, por isso acreditava que pudesse viver perfeitamente e pacificamente com a dita nefrite. Dedicou-se a pesquisar, tentou ouvir o que os profissionais de saúde lhe diziam sobre a doença, mas pouco retinha, até porque não tinha feito nada de mal a ninguém para merecer levar com uma doença grave e crónica. Permaneceu incrédulo, sem noção da gravidade e cronicidade da doença. Manteve por algum tempo a possibilidade de erro no diagnóstico e da possibilidade de tudo aquilo se tratar de uma infeção aguda, provavelmente adquirida durante o duro curso da vida militar na Bósnia. Tentou atribuir culpas aos genes, mas nunca chegou a ter a confirmação das causas da doença. E isso revoltou-o… ainda que procurasse sempre não dar a entender aos outros, vivia uma revolta interior silenciosa.

 

Com o diagnóstico e início do tratamento sintomático, passou a sentir-se fisicamente melhor, manteve a sua atividade profissional e decidiu abraçar a prática desportiva, com os amigos, através da prática de futebol de salão. Isto constituía um importante momento de convívio e bem-estar, e sentiu-se novamente capaz e sem limitações. Seguiu-se um curso de tratamentos com corticoterapia, que pretendia diminuir a inflamação crónica do rim, mas traduzia-se numa panóplia enorme de efeitos secundários difíceis de aceitar e tolerar para o doente, sobretudo os edemas e o ganho de peso. Para lutar contra isso, o Ricardo insistia na atividade física, de forma quase obsessiva, como única forma de escape para tudo que lhe estava a acontecer. Era uma forma de luta, resistência, autossuperação e servia para apaziguar a sua revolta interior.

 

Iniciou a prática de outras modalidades, como o cicloturismo, desafiando-se até ao limite. Durante este percurso manteve o acompanhamento semestral e vigilância periódica para controle analítico da equipa médica e da nutricionista. Apesar de incentivarem a prática, indicavam-lhe prudência e cumprimento rigoroso do regime terapêutico. De realçar a necessidade de hidratação e reposição metabólica, com preparados caseiros que lhe ensinaram a fazer, um género de “Isostar” natural, feito em casa, que tinha de o acompanhar, sempre que aumentasse a intensidade da prática desportiva.

 

Foi, em grupo, de bicicleta até Santiago de Compostela, até Fátima, percursos de muitos quilómetros e desgaste intenso. Como homem de fé, o Ricardo procurava sempre percursos promotores de alguma meditação interior, como se fosse entregar o seu sacrifício em busca da sua cura, como se fosse procurar alento e proteção divina para algo que ele ainda desconhecia e procurava não aceitar. E nada, nem ninguém o fez parar. Nem mesmo algumas lesões que foram surgindo e alguns sinais esporádicos que o corpo lhe ia dando, fazendo-o perceber a duras penas que, a doença que ele queria esquecer, permanecia afinal impiedosa e sem sinais de dar tréguas.

 

Em 2013 inicia a prática de "trail running", modalidade que o apaixonou de imediato, porque fazia-lhe lembrar a vida militar, através da corrida na montanha e o contacto com a natureza. Esta prática fazia sentir-se livre, sem nada que o contivesse ou amarras que o segurassem. Com a Minho Aventura seguiram-se provas semanais de progressiva intensidade e dificuldade. Iniciou com uma prova de 22km de corrida na magnífica, esplendorosa, mas exigente Serra D`Arga, até limite máximo de provas de 110km. Competia com pessoas saudáveis, que acompanhava perfeitamente, o que lhe aumentava o ego e a auto-estima. Carregava consigo o sentimento de que era capaz e nada o poderia destronar.

 

Correu intensamente até santiago de Compostela, em 3 dias, deixando para trás peregrinos em bicicleta que ficavam admirados com a sua força e forma física. Cativou a sua esposa, irmão e amigos para a prática. A Natália, esposa atenta, procurava sempre acompanhar o marido, como forma de o motivar, mas também com preocupação, procurando protege-lo, tentando que ele não excedesse os seus limites. Mas não existem limites para almas assim!

 

Decidiu correr por causas, pela sua causa. Investigou e tomou conhecimento de associações que apoiavam os doentes renais e procurou ajudar, correndo. Por cada Km percorrido fazia uma doação para a associação, procurando chamar a atenção da população para esta doença grave e crónica, tentando diminuir o estigma associado a doença e incentivar as pessoas doentes a manterem-se ativas e saudáveis. Tornou-se socio da APIR (Associação Portuguesa de Insuficientes Renais), mantendo uma participação ativa, dando formação e palestras, promovendo o seu exemplo de doente crónico, ativo e desportista!

 

Nos finais de 2016 o seu corpo começou a dar os sinais de falência. Surgem as dores musculares, cãibras, anorexia, fadiga, edemas, que o atormentavam. Incapaz de aceitar o curso final da sua doença mantém a atividade física, apesar do desconforto da prática e da necessidade de maior tempo de recuperação do esforço. Profissionais de saúde insistiam para que reduzisse a atividade, mas ele não podia, pois só o continuar a desafiar o seu corpo lhe permitia não se entregar a esta doença, continuar vivo e a acreditar que era capaz de resistir a uma realidade anunciada, de limitação, incapacidade e dependência. Esta teimosia e forma de estar, causava frequente desconforto e discussão familiar, pois as pessoas que o amavam tanto temiam que algo lhe acontecesse e presenciavam de perto o sofrimento físico associado a uma prática desportiva, por vezes exagerada, face á sua condição de saúde, progressivamente mais frágil e debilitada.

 

Em janeiro de 2017, o médico nefrologista dita-lhe a sua sentença final, por falência renal (13% de funcionalidade) e exige a escolha de um dos métodos de tratamento. Embora soubesse, a razão esteve sempre dissociada do coração e a fé de que não teria que passar por isto é que mantinha o alento para viver. Achou tudo mau, condicionador e limitador. Optou pela diálise peritoneal pela maior garantia de autonomia, por evitar deslocações obrigatórias a clínicas, onde via nos outros doentes a sua própria doença e sofrimento e ele não conseguiria tolerar isso. Colocou um cateter para dialise peritoneal, que não lhe pareceu de todo assustador e decidiu “queimar os últimos cartuchos” e aproveitar tudo o que sabia que poderia vir a perder brevemente. “Com o cateter ainda se corre melhor” - dizia! E mantinha a atividade de trail running, bem como o desafio constante dos seus limites físicos.

 

Mas como previsto, a doença não abrandou. Ganhou a batalha e a 18 de maio de 2017, procedeu à exteriorização do cateter para a realização da primeira sessão de dialise peritoneal, após uma sequência de episódios dolorosos e sofridos. Foi neste momento que a depressão se apoderou do Ricardo, visível através do vazio do seu olhar, do seu sorriso triste, da incapacidade, limitação e da falta de expectativas. Facto agravado, pelas múltiplas intercorrências infeciosas relacionadas com o cateter que lhe martirizavam e amedrontava. Perdeu a capacidade e o direito de sonhar e, como disse alguém, ainda que permaneçamos vivos, se não sonharmos, a alma morre. Mas a alma do Ricardo recusou-se a isto. Decidiu que não seria vencido pela doença, que continuaria a tentar viver o melhor possível e a fazer aquilo que sempre gostou. Cerca de 1 mês depois do início da diálise, iniciou caminhadas com o seu pai, eterno companheiro, atento as necessidades do seu filho, pelos caminhos da freguesia, arriscando de quando em vez uma corridinha. Contrariamente ao que ele próprio esperava, o tratamento de diálise devolveu-lhe a força física e a tolerância ao esforço. Sentia-se fisicamente melhor, com maior capacidade e tolerância á prática desportiva e logo arriscou correr, voltou a competir na Minho Aventura, apercebendo-se que os seus companheiros continuavam a acreditar nele e a estimulá-lo.

 

Voltou às competições em março de 2018. Enquanto sócio da APIR, tomou conhecimento do Jogos Europeus para Transplantados e Dialisados e decidiu abraçar esta aventura, embora inicialmente renitente, pela expectativa de poder ser chamado para transplante, mas sobretudo pelo encargo financeiro que representam para o próprio atleta. Assim embarcou numa campanha de divulgação da sua participação nos jogos, de forma a obter apoios. Durante este período de divulgação não temeu expor-se. Deu a cara pela sua doença, tentando desta forma dar tudo de si pelos outros que partilham dos mesmos sentimentos, fraquezas e medos e que precisam de uma mão amiga e de um exemplo a seguir.

 

O Ricardo assegura que nada o vai fazer parar, agradece todos os Dias a Deus a sua doença pois abriu-lhe horizontes para algo muito maior. Cumpre rigorosamente o esquema medicamentoso, a dieta a atividade e o repouso e os dois tratamentos de diálise diários. Está consciente das suas limitações, mas não pretende permitir que estas limitem os seus sonhos e projetos. Ambiciona acima de tudo poder estar junto dos seus companheiros de doença, trabalhando com eles na promoção de hábitos de vida saudáveis para que assim possam ser doentes mais saudáveis. Pretende continuar a correr, por ele, pela sua família e amigos, pelos doentes e porque, afinal, há vida para viver após diálise e após transplante.

Ter | 17.07.18

15 movimentos naturais que toda a gente deveria conseguir fazer

José Guimarães

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Ainda a propósito das férias no Vietname, à parte das paisagens, dos templos e pagodes, das comidas e afins, saltou-nos à vista uma coisa interessantíssima que não poderia escapar a quem, como eu, tem uma curiosidade constante por tudo o que tenha a ver com o corpo humano, as suas limitações e capacidades. Naqueles países da ásia é muito frequente (mais do que alguma vez possam pensar) vermos pessoas na rua a fazer agachamentos. Mas quando falo em agachamentos, estes são, antes de mais, agachamentos bem fundos ("full squat", com o rabo quase a tocar no chão) e executados de uma forma perfeita, usados pelas pessoas para ficar confortavelmente a fazer qualquer atividade quotidiana. E aqui está a diferença! Entre comer, conversar, fumar, falar ao telemóvel, até vimos uma mãe a amamentar uma criança... sim, em posição de agachamento.

 

Esta característica marca claramente uma diferença nítida entre a cultura destes países, habituada a fazer tudo de forma ativa, movimentando-se de um lado para o outro, e a nossa cultura ocidental, infelizmente muito sedentária.

 

E aqui tenho que vos trazer um artigo que li há uns dias no site da MovNat, que falava sobre movimentos básicos que todos nós devíamos ser capazes de fazer naturalmente, mas que, infelizmente, por causa das características das nossas rotinas diárias, vamos deixando de ter a capacidade de fazer. Como aqueles agachamentos perfeitos dos vietnamitas, por exemplo.

 

Juntamente com o nível geral de saúde, não é segredo para ninguém que o nível de aptidão física do Homem moderno tem vindo a baixar com o passar dos tempose com a crescente modernização e industrialização de tudo o que antigamente fazíamos com as nossas próprias mãos. Com isto, temos "deixado na prateleira" muitos dos movimentos básicos que fazíamos enquanto crianças e que hoje somos perfeitamente incapazes de fazer. A falta de utilização (ou a má utilização) do nosso corpo faz também com que nos desliguemos cada vez mais da nossa natureza, o que é trágico, já que não nos permite explorar a nossa verdadeira natureza enquanto Seres vivos.

 

Notem que a maior parte de vós até poderá conseguir fazer os movimentos que se seguem, mas isso não significa que os consigam fazer da forma mais correta e eficiente, necessitando para tal de muita prática. Portanto não se deixem iludir. Não prefiram os "burpees", só porque estes movimentos parecem simples demais para perderem o vosso tempo com eles. Eles são as bases para tudo o resto!

 

Movimento #1: Agachamento profundo ("deep squat")

O agachamento profundo é o primeiro da lista, porque é um dos pilares do movimento humano. No entanto, muitas pessoas não o conseguem fazer, o que está diretamente relacionado com um estilo de vida sedentário. Se não conseguem ficar nesta posição confortavelmente durante alguns minutos, poderão ganhar muito se o praticarem e evoluirem no mesmo até o conseguirem fazer sem esforço.

 

Movimento #2: Gatinhar de joelhos

Este é um dos movimentos de gatinhar mais básicos. Se um bebé o consegue fazer bem, um adulto também o deverá fazer.

 

Movimento #3: Embalar

Parece fácil, mas a maior parte das pessoas sem treino não conseguem fazer este movimento de forma eficiente. Os mais avançados poderão integrar este movimento com um agachamento, usando-o para se levantarem do chão, por exemplo. O objetivo, mais uma vez, deverá ser fazer o movimento sem esforço.

 

Movimento #4: "Deadlift"

Apesar de parecer coisa de "Crossfit", o "deadlift é um dos movimentos mais práticos de sempre, que usamos praticamente todos os dias, muitas vezes sem nos darmos conta (e de forma incorreta). É uma habilidade motora essencial, que nos permite levantar peso de forma eficiente e que, por isso, é parte integrante de muitos programas de treino de força.

 

Movimento #5: Caminhar em equilíbrio

Hoje em dia raramente pomos à prova o equilíbrio... até o perdermos! Assim, é importante que o treinemos, já que é uma habilidade que nos traz inúmeras vantagens.

 

Movimento #6: Passar por cima...

Passar por cima de alguma coisa é um movimento rudimentar e muito prático, principalmente quando caminhamos ou corremos no meio da natureza (aqui está mais um para o "trail running"). Devemos ser capazes de manter uma postura erecta, respirar tranquilamente, enquanto transferimos o peso por cima de um obstáculo.

 

Movimento #7: Passar por baixo...

Tal como o anterior, aqui também devemos manter uma postura o mais erguida possível, respirar tranquilamente e transferir o peso enquanto passamos por baixo do obstáculo.

 

Movimento #8: "Swing jump" com uma perna

Este salto é ideal para iniciados, que o podem usar para saltar distâncias curtas, com uma aterragem suave e precisa.

 

Movimento #9: Gatinhar invertido

Chamado muitas vezes de "andar à caranguejo", este movimento é muito simples, mas quase sempre feito de forma pouco eficaz. Mantenham os braços direitos, os ombros estáveis e iniciem o movimento com as pernas.

 

Movimento #10: Pendurado

Este movimento é uma base para dominar habilidades de suspensão e escalada. Muitas pessoas não têm mobilidade suficiente nos ombros para ficarem pendurados nesta posição, sem compensarem de alguma forma com a coluna ou caixa toráxica. Tal como o agachamento, este movimento traz muitos benefícios, se bem executado.

 

Movimento #11: Transportar ao colo

Esta é uma técnica de elevação e transporte, que serve para transferir um objeto do chão para o colo, antes de o transportar para qualquer local. É particularmente útil para objetos pesados ou irregulares.

 

Movimento #12: Atirar e apanhar

Parece muito simples. Mas será que conseguem fazer este movimento com um objeto pesado? E com que rapidez? E a técnica?

 

Movimento #13: Transportar ao peito

Há muitas formas de agarrar e transportar um objeto, e esta é uma das mais básicas, sendo necessárias uma boa postura, respiração, tensão e descontração. Bom para transportar alguma coisa pesada durante uma distância mais longa.

 

Movimento #14: "Split squat"

Este movimento básico de locomoção é muito prático e vem com inúmeros benefícios. É um dos que ninguém pode passar sem dominar, portanto tratem de o praticar todos os dias.

 

Movimento #15: Flexão dos joelhos

Tal como o agachamento profundo, esta flexão também serve como posição de descontração e transição entre movimentos diferentes. Trabalhem de forma a manter uma postura erecta, respiração descontraída e um bom equilíbrio.

 

Conclusões

Antes de mais é importante ter em conta que cada pessoa tem um nível de condição física diferente, antecedentes diferentes, historiais diferentes. Portanto, o que conta aqui é mais o trabalho que se vai fazendo, do que propriamente tentar chegar ao objetivo o mais rapidamente possível. 

 

Seja com maior ou menor dificuldade, a boa notícia é que com a prática diária e rotineira de algumas destas rotinas, toda a gente pode tirar proveito dos movimentos mais simples. O truque é praticar de forma sistemática e em segurança. Se tiverem dúvidas, deixem nos comentários deste post ou contactem-me. Terei todo o prazer em ajudar.

 

Fonte: MovNat

Dom | 15.07.18

Todos os sítios onde nunca correste são imaginários!

José Guimarães

Já passaram 4 dias desde que chegámos de férias. Foram 16 dias de sonho, a viajar entre o Vietname, Cambodja e Tailândia, com direito a muitas horas de avião para atravessar 3 continentes.

 

No regresso a Portugal, à saída do avião no aeroporto em Lisboa, reparei num cartaz pouco interessante, mas com uma mensagem interessantíssima (e desde já tiro o chapéu ao criador da mesma). A mensagem no cartaz dizia:

"Todas as cidades que nunca visitaste são imaginárias!"

 

Confesso que ao ler isto fiquei 15 segundos a pensar. E de repente voltei ao dia que antecedeu o início da nossa viagem. Voltei às expectativas que tinha e às que não tinha. Pensei em todos os momentos em que imaginámos como tudo iria ser, e à realidade com que nos deparámos no outro lado do Mundo. E não interessa se é melhor ou pior que a nossa realidade. É outro continente, são outras culturas, muitas vezes em choque com os nossos hábitos. São histórias de vida completamente diferentes da nossa que, por muitas razões, espero nunca termos que enfrentar.

 

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Voltando à frase interessante, concluí que a mente criativa que a criou sabia bem o que queria dizer. De facto, se não visitarmos todos os sítios que um dia já sonhámos visitar, estes sítios nunca vão passar da esfera da nossa imaginação. É quase como se não existissem. E fazendo uma rápida analogia com o meu desporto favorito - a corrida - as corridas que nunca fizemos são, também elas, imaginárias.

 

Normalmente quando alguém me diz que quer fazer a primeira maratona, enfrentar o primeiro trail, ou levar a cabo um desafio qualquer pela primeira vez, vem sempre acompanhado por muitas dúvidas. A maior parte delas pertinentes, é certo, mas quase todas surgindo pelo medo do desconhecido. Antes de eu próprio ter feito a minha primeira maratona, essa distância era um baú de expectativas, "muros" e de dificuldades, todas imaginadas. Antes de ter ido fazer pela primeira vez o UTMB, isso sim, era um mundo totalmente desconhecido e que, ainda hoje, tem algumas particularidades por explorar. Assim, é perfeitamente natural que, cada um de nós, ao nos desafiarmos com um objetivo totalmente novo, sejamos assolados por dúvidas e mais dúvidas. Mas como os desafios são todos diferentes e cada um de nós também, não há propriamente uma fórmula mágica que nos permita ultrapassar o desconhecido com segurança.

 

Assim, deixo aqui um conselho para aqueles que têm novos objetivos em mente. Seja a primeira corrida de 10km ou a primeira maratona, lancem-se ao vosso objetivo com tranquilidade e confiança. Não pensem nos tempos, nem em bater recordes, mas avancem sem medos, para conhecer, para registar todos os pormenores e nuances, para saber como o vosso corpo reage e como recuperaram no final. E, acima de tudo, para saberem se, no final, gostam da experiência! E depois, aí sim, quando essa vossa "viagem" já não fizer somente parte da esfera da vossa imaginação, aí sim, voltem a estabelecer novos objetivos, mais agressivos, agora baseados em factos, agora com conhecimento de causa.

 

Normalmente quando me perguntam: "achas que posso fazer uma maratona?", ou "será que consigo fazer aquele trail?", a minha resposta é sempre: sim! Se esse é o vosso desejo, então sim! Preparem-se adequadamente e vão! Porque se nunca o fizerem, esses desafios nunca vão passar de coisas na vossa imaginação.